Diante de uma crise pessoal profunda, como a vivida por mulheres que enfrentam relacionamentos abusivos ou ambientes familiares marcados pela violência, a busca por sentido se torna quase inevitável. É nesse contexto que a fé e a espiritualidade frequentemente emergem como um recurso de força emocional. Esse é um dos temas que atravessam o trabalho de Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista especializada em saúde mental e relações familiares, com atuação voltada ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade.
Por que a fé pode ser um recurso emocional tão poderoso?
A psicanálise, embora não seja uma prática religiosa, reconhece a importância da dimensão espiritual na vida psíquica das pessoas. A fé oferece algo que poucas outras experiências conseguem proporcionar: um sentido de pertencimento a algo maior, a sensação de não estar só diante da dor e a esperança de que existe um propósito mesmo nos momentos mais difíceis. Para muitas mulheres que atravessam situações de violência ou abandono, essa dimensão espiritual funciona como um ponto de ancoragem emocional em meio ao caos.
A fé não substitui o cuidado psicológico, mas ambos podem caminhar juntos, de forma complementar. Quando uma mulher encontra em sua fé um espaço de força e acolhimento, isso não deve ser desconsiderado pelo profissional de saúde mental. Pelo contrário, é importante respeitar e até mesmo dialogar com essa dimensão, porque ela faz parte de quem essa pessoa é e de como ela constrói sentido para sua própria história. É esse tipo de escuta integradora que orienta abordagens clínicas como a desenvolvida por Taiza Tosatt Eleoterio.
Como a espiritualidade ajuda a atravessar o sofrimento?
Momentos de vulnerabilidade costumam colocar em xeque as certezas que sustentavam a vida até então. Quando uma mulher toma a decisão de deixar um relacionamento abusivo, por exemplo, é comum que ela perca não só o vínculo emocional, mas também algumas de suas referências importantes, como identidade e senso de comunidade. Nesse vazio, a espiritualidade pode oferecer um acalento: orações, práticas religiosas, rituais de fé e a sensação de estar sendo cuidada por algo maior funcionam como sustentação emocional enquanto a reorganização da vida acontece.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que, do ponto de vista psicanalítico, esses recursos cumprem uma função importante de continência psíquica. Eles ajudam a conter angústias que, sem esse suporte simbólico, poderiam se tornar avassaladoras. Isso não é exclusividade de nenhuma religião específica: seja na tradição cristã, na Umbanda, no Espiritismo ou em qualquer outra prática espiritual, o que importa psicologicamente é a função que essa fé exerce, oferecer sentido, comunidade e esperança em momentos em que tudo parece ter desmoronado.
Qual é o papel das instituições religiosas no enfrentamento à violência?
Para além do pessoal, da fé de cada um, as instituições religiosas também desempenham um papel coletivo relevante no enfrentamento à violência doméstica. Igrejas, templos e centros religiosos costumam ser espaços de forte convívio e união comunitária, e isso os torna lugares estratégicos para a identificação precoce de situações de risco e para o encaminhamento de mulheres a serviços especializados de proteção.
Líderes religiosos têm uma responsabilidade importante nesse processo. Quando uma liderança religiosa está atenta e preparada para reconhecer sinais de violência, ela pode ser uma ponte fundamental entre a mulher e a rede de proteção formal. O problema acontece quando essa liderança, por falta de preparo, acaba reforçando a permanência da mulher na relação abusiva em nome da preservação da família a qualquer custo. É preciso muito cuidado e formação para que a fé seja uma aliada da proteção, e não um obstáculo a ela, um ponto frequentemente discutido no trabalho de orientação familiar de Taiza Tosatt Eleoterio.
Existe um limite entre fé como apoio e fé como aprisionamento?
Esse é um ponto delicado que merece atenção. Embora a espiritualidade possa ser uma fonte genuína de força nos momentos difíceis, ela também pode, em alguns contextos, ser usada de forma distorcida para justificar a permanência em situações de sofrimento, como quando se reforça a ideia de que a mulher deve suportar a violência em nome da fé ou do sucesso do casamento. Esse tipo de discurso não tem relação com uma espiritualidade saudável.
A fé que cura é aquela que fortalece a mulher para que ela possa se proteger e proteger seus filhos, nunca uma fé que a aprisiona em um ciclo de sofrimento. Esse é um ponto em que o diálogo entre psicanálise e comunidades religiosas se torna essencial, para que ambas trabalhem na mesma direção: a da proteção e do cuidado.
De que forma a comunidade de fé pode acolher sem julgar?
É importante que o acolhimento em locais religiosos seja feito com cuidado, sem julgamentos ou imposições às vítimas. Mulheres que vivem ou viveram situações de abuso frequentemente carregam vergonha e medo de serem julgadas por sua comunidade de fé, especialmente quando há expectativas culturais ou religiosas em torno do casamento e da família. Criar um ambiente em que essa mulher possa falar abertamente, sem medo de condenação, é um passo essencial para que a fé cumpra seu papel de força e não de silenciamento.
Acolher sem julgar é, talvez, o maior desafio e a maior dádiva que uma comunidade de fé pode oferecer a uma mulher em sofrimento. É esse acolhimento que, muitas vezes, a impulsiona a buscar ajuda especializada e a dar os primeiros passos em direção a uma vida mais segura, um caminho de cuidado que dialoga diretamente com o trabalho de psicanalistas como Taiza Tosatt Eleoterio, dedicado ao apoio de mulheres em situação de vulnerabilidade.
