Levantamento da ABES em parceria com a IDC mostra que 95% das companhias nacionais já usam ou planejam adotar IA, superando pela primeira vez a cibersegurança como prioridade estratégica
Um dado chama atenção em qualquer roda de conversa sobre tecnologia corporativa neste momento: 95% das empresas brasileiras com mais de 100 funcionários já utilizam inteligência artificial em suas operações ou planejam fazê-lo em breve. O número, apurado por um estudo inédito da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) em parceria com a IDC e apresentado neste mês de agosto, ajuda a responder uma pergunta que vem se tornando cada vez mais comum entre gestores e profissionais de tecnologia: a inteligência artificial realmente já saiu da fase de experimento e virou prioridade real dentro das companhias brasileiras?
Pela primeira vez, IA ultrapassa cibersegurança na agenda das empresas
A resposta, segundo o levantamento, é sim. Pela primeira vez, a inteligência artificial ultrapassou a cibersegurança e a computação em nuvem como principal tema na agenda estratégica das empresas nacionais. Esse deslocamento não é apenas simbólico. Ele reflete uma mudança de postura dentro das áreas de tecnologia, que deixaram de tratar a IA como um projeto-piloto isolado e passaram a encará-la como um alicerce competitivo, algo que atravessa praticamente todas as áreas de uma organização, da atendimento ao cliente à análise de dados internos.
O reflexo financeiro dessa mudança já aparece nos números. Oito em cada dez executivos, mais precisamente 86% dos líderes empresariais ouvidos pela pesquisa, afirmaram que planejam ampliar os investimentos em tecnologia da informação em 2026 na comparação com o ano anterior. Segundo as projeções da IDC citadas no estudo, os gastos brasileiros em inteligência artificial devem superar US$ 3,4 bilhões ainda neste ano, com uma taxa de crescimento superior a 30% ao ano, um ritmo que coloca o país entre os mercados mais dinâmicos da região nesse setor específico.
Agentes inteligentes ganham espaço mais rápido do que o esperado
Se a adoção da inteligência artificial já avança em larga escala entre as empresas brasileiras, uma camada mais sofisticada da tecnologia está ganhando força em velocidade ainda maior. O estudo aponta que 40% das companhias nacionais já investem em agentes inteligentes, sistemas capazes de executar tarefas de forma autônoma, sem necessidade de intervenção humana constante em cada etapa do processo.
Esse movimento representa uma virada em relação ao modelo anterior, em que a inteligência artificial era usada principalmente como ferramenta de apoio, sugerindo respostas ou automatizando tarefas simples e repetitivas. Os agentes inteligentes propõem outra lógica, na qual o sistema toma decisões dentro de parâmetros definidos e executa fluxos de trabalho completos, o que exige das empresas um nível diferente de confiança na tecnologia e também de investimento em governança para acompanhar essas decisões automatizadas.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial tenta reduzir a dependência externa
Diante desse cenário de expansão acelerada, o governo federal aposta no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê investimentos de R$ 1,76 bilhão até 2028, com foco em formação de talentos, construção de infraestrutura própria e busca por soberania tecnológica. A iniciativa nasce de um diagnóstico específico: o Brasil lidera o consumo de inteligência artificial na América Latina, mas ainda depende majoritariamente de plataformas e infraestrutura desenvolvidas fora do país, o que representa um risco estratégico de médio prazo.
Essa preocupação com autonomia tecnológica também apareceu recentemente na fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que defendeu, em reunião no Palácio do Planalto no início de agosto, a criação de uma estratégia nacional mais robusta para o setor, reforçando que o país não deve se limitar a consumir tecnologias criadas por outras nações. O encontro reuniu ministros, pesquisadores e representantes do setor privado, sinalizando que o tema já ocupa espaço permanente na agenda do governo, embora ainda faltem anúncios concretos sobre novos programas específicos.
Governança de dados aparece como principal obstáculo à escala
Apesar do otimismo em torno dos números de adoção, o estudo da ABES e da IDC também identifica um ponto de atenção recorrente entre os líderes de TI ouvidos: a governança de dados desponta como o principal obstáculo para escalar o uso da inteligência artificial dentro das empresas brasileiras. Isso significa que, embora a vontade de investir esteja presente, muitas organizações ainda enfrentam dificuldades para organizar, proteger e estruturar as bases de dados que alimentam esses sistemas.
A expansão acelerada do setor também pressiona a infraestrutura energética nacional, um ponto que tende a ganhar relevância nos próximos meses à medida que mais data centers e operações de processamento intensivo passam a demandar energia em volumes crescentes. Para empresas que estão avaliando o próximo passo em suas estratégias de tecnologia, o cenário sugere que investir apenas em ferramentas de inteligência artificial não é suficiente: será necessário também investir em qualidade de dados, segurança e capacidade de infraestrutura para sustentar esse crescimento de forma consistente ao longo dos próximos anos.
