Unicamp 2021: 1ª fase para candidatos de biológicas e saúde reúne eleições nos EUA, gênero neutro, Covid e feminismo negro

Candidatos aos cursos de biológicas e saúde na 1ª fase da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1 1 de 6
Candidatos aos cursos de biológicas e saúde na 1ª fase da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1

Candidatos aos cursos de biológicas e saúde na 1ª fase da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1

A Unicamp encerrou a 1ª fase do vestibular 2021, nesta quinta-feira (7), com uma prova que reuniu, de acordo com relatos de estudantes ouvidos pelo G1, conteúdos do ensino médio apresentados por meio de enunciados construídos a partir de temas como eleições presidenciais nos Estados Unidos, feminismo negro, gênero neutro, Covid-19, Lélia Gonzalez e a resistência negra na ditadura, além fascismo e um texto da escritora Fernanda Young intitulado “A cafonice detesta a arte”, de 2019.

A universidade oferece 3.237 vagas em 69 cursos de graduação. Os candidatos aprovados terão nomes divulgados pela comissão organizadora (Comvest) em 29 de janeiro, no site institucional, enquanto que a 2ª fase do processo seletivo está marcada para os dias 7 e 8 de fevereiro.

Nesta tarde, eram esperados pela universidade estadual 43.631 candidatos inscritos em cursos das áreas de ciências biológicas e de saúde. O exame com 72 questões testes teve início às 13h e, embora a duração seja de quatro horas, parte dos estudantes começou a deixar as salas após duas horas – tempo mínimo determinado pela comissão para permanência na avaliação.

Temas abordados

  • Eleições presidenciais nos EUA
  • Gênero neutro
  • Covid-19
  • Fascismo
  • Feminismo negro
  • Osteoporose
  • Biomas e desmatamento
  • Lélia Gonzalez e a resistência negra na ditadura
  • Obra ‘Sobrevivendo no Inferno’, do grupo Racionais Mc’s
  • Sistema Único de Saúde (SUS)
  • Machismo na linguagem

Impressões

Assim como na quarta-feira, quando foram avaliados concorrentes aos cursos das áreas de ciências exatas/tecnológicas e ciências humanas/artes, os estudantes voltaram a destacar que o exame focou em conteúdos avaliados como mais básicos, conforme havia sinalizado a Unicamp por meio de mudanças na estrutura da prova diante da crise sanitária – veja abaixo detalhes.

A candidata Júlia Almeida, de 20 anos, busca uma vaga em medicina e fez a prova no campus I da PUC-Campinas. Ela explica que, no comparativo com edições anteriores, a prova de hoje foi mais fácil na parte de exatas. “Em química, principalmente, que eu estudei muito mais questões numéricas e hoje foram mais textuais”, falou ao comentar que o exame abordou a pandemia em pelo menos três questões, e também houve uma referência sobre as eleições presidenciais nos Estados Unidos.

A vestibulanda Júlia Almeida, no campus I da PUC-Campinas — Foto: Bárbara Brambila / G1 2 de 6
A vestibulanda Júlia Almeida, no campus I da PUC-Campinas — Foto: Bárbara Brambila / G1

A vestibulanda Júlia Almeida, no campus I da PUC-Campinas — Foto: Bárbara Brambila / G1

O estudante João Vitor Ribeiro da Silva, 18 anos, foi até o Colégio Liceu Salesiano para realizar a prova. Ele planeja cursar ciências biológicas e destacou à reportagem uma questão de inglês que tratou sobre gênero neutro, onde era mencionado que o pronome “they” como palavra do ano em 2019 pelo dicionário Merriam-Webster. A palavra pode ser usada para homens ou mulheres, no plural.

“Teve questões que usaram posts de redes sociais”, falou o jovem ao mencionar que a universidade cobrou conteúdos de ortografia e interpretação por meio desta linguagem. Outro conteúdo destacado foi uma questão que indicou o papel de Lélia Gonzalez para resistência negra durante a ditadura, e a maior dificuldade na preparação, segundo ele, foi decorrente do fato de ter feito ensino a distância.

João Vitor Ribeiro da Silva, de 18 anos, tenta vaga em ciências biológicas — Foto: Rafael Smaira/G1 3 de 6
João Vitor Ribeiro da Silva, de 18 anos, tenta vaga em ciências biológicas — Foto: Rafael Smaira/G1

João Vitor Ribeiro da Silva, de 18 anos, tenta vaga em ciências biológicas — Foto: Rafael Smaira/G1

Gabriela Barros Gonçalves, 32 anos, tenta uma das oportunidades disponíveis em educação física. Ela valorizou a questão que usou o texto de Fernanda Young como referência.

“Estou prestando vestibular para reingressar. Como já estudei na Unicamp, tive experiência anterior e achei uma prova muito bonita, me encheu de orgulho e saio com o sentimento de me sentir representada por quem fez […] Temas relevantes para discussão no momento, foi muito além de avaliar os conhecimentos básicos e a decoreba. Exigiu pensamento crítico”.

Ela conta que é funcionária da universidade e já havia iniciado o curso, mas não conseguiu concluir. Ela também valorizou a abordagem da pandemia – assunto que a universidade considerou em questões que trataram sobre máscara de proteção facial, oxímetro e papel do Sistema Único de Saúde.

Gabriela Barros Gonçalves tem 32 anos e tenta voltar a cursar educação física — Foto: Rafael Smaira/G1 4 de 6
Gabriela Barros Gonçalves tem 32 anos e tenta voltar a cursar educação física — Foto: Rafael Smaira/G1

Gabriela Barros Gonçalves tem 32 anos e tenta voltar a cursar educação física — Foto: Rafael Smaira/G1

Gabriel Perfeito Marinho, de 19 anos, planeja ingressar no curso de farmácia. Para ele, entre os destaques da avaliação estão as perguntas atreladas às músicas Gênesis e Jorge da Capadócia do álbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo Racionais Mc’s. Ele relata que, como fez ensino médio em colégio técnico, se preparou por meio de videoaulas e materiais de amigos.

“Gostei das partes dos livros, cultura […] Achei muito bacana”, falou ao elogiar a forma como a Unicamp abordou conteúdos de matemática e biologia nos testes.

Gabriel Perfeito Marinho, de 19 anos, tenta vaga em farmácia no vestibular da Unicamp 2021. Ele já fez curso técnico na área — Foto: Rafael Smaira/G1 5 de 6
Gabriel Perfeito Marinho, de 19 anos, tenta vaga em farmácia no vestibular da Unicamp 2021. Ele já fez curso técnico na área — Foto: Rafael Smaira/G1

Gabriel Perfeito Marinho, de 19 anos, tenta vaga em farmácia no vestibular da Unicamp 2021. Ele já fez curso técnico na área — Foto: Rafael Smaira/G1

O machismo na linguagem também foi discutido na prova, segundo o estudante Thiago Simonetti, de 18 anos, um dos candidatos ao curso de medicina. O texto indicava entre as referências a escritora Cecília Meireles e o fato de Dilma Rousseff ter adotado o termo “presidenta” durante os mandatos.

O estudante Thiago Simonetti, no vestibular da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1 6 de 6
O estudante Thiago Simonetti, no vestibular da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1

O estudante Thiago Simonetti, no vestibular da Unicamp — Foto: Bárbara Brambila / G1

Dois dias de 1ª fase

Nesta edição, a Unicamp dividiu a 1ª fase do processo seletivo em dois dias com objetivo de evitar aglomerações. Em cada dia, a prova foi composta pelas seguintes questões:

  • 12 de língua portuguesa e literatura;
  • 12 de matemática;
  • 8 de cada disciplina: biologia, física, geografia/sociologia, história/filosofia, inglês e química.

O total de inscritos foi de 77,6 mil, incluindo recorde de estudantes oriundos da rede pública. Na quarta, foram avaliados

Esquema especial

A Unicamp preparou um esquema especial para aplicar as provas da 1ª fase do vestibular 2021, com propósito de atender às regras de biossegurança contra o novo coronavírus. Haverá uso recorde de salas para as avaliações e foram feitas compras de 2 mil litros de álcool em gel e de 25 mil máscaras de proteção para os fiscais e profissionais de apoio na aplicação do exame.

Conteúdos

Diante da crise sanitária, a Unicamp reduziu a quantidade de questões testes – de 90 para 72, com tempo máximo de quatro horas, ao invés das cinco estipuladas em anos anteriores.

A lista de livros obrigatórios também foi alterada e passou de 12 para sete, com objetivo de garantir que os candidatos pudessem acessar todos os títulos em meio à crise sanitária para estudar.

Lista de obras literárias

  • Sonetos escolhidos, de Camões;
  • Sobrevivendo no Inferno, do grupo Racionais Mc’s;
  • O Espelho, de Machado de Assis;
  • O Marinheiro, de Fernando Pessoa;
  • A Falência, de Júlia Lopes de Almeida;
  • O Ateneu, de Raul Pompeia;
  • Sermões, de Antonio Vieira.

Foram excluídas desta edição as seguintes obras literárias: A teus pés; O seminário dos ratos; História do cerco de Lisboa; Quarto de despejo; A cabra vadia.

Logística

As provas ocorrem em 37 cidades, entre elas, 32 de São Paulo e cinco capitais de outros estados.

São Paulo

  • Araçatuba, Barueri, Bauru, Botucatu, Bragança Paulista, Campinas, Fernandópolis, Franca, Guarulhos, Indaiatuba, Jundiaí, Limeira, Lorena, Marília, Mogi das Cruzes, Mogi Guaçu, Osasco, Piracicaba, Presidente Prudente, Ribeirão Preto, Santa Bárbara D’Oeste, Santo André, Santos, São Bernardo do Campo, São Carlos, São João da Boa Vista, São José do Rio Preto, São José dos Campos, São Paulo, Sorocaba, Sumaré e Valinhos.

Outros estados

  • Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Curitiba (PR), Fortaleza (CE) e Salvador (BA).

Cursos mais disputados

Neste ano, os dez cursos mais procurados pelos candidatos são: medicina, arquitetura e urbanismo; ciências biológicas; comunicação social-midialogia; ciência da computação; engenharia da computação; farmácia; história; ciências econômicas e enfermagem.

O total de vagas nesta edição inclui as 639 oportunidades que estavam previstas inicialmente no edital Enem-Unicamp, que deixou de ser oferecido para ingresso no próximo ano por causa do “calendário incompatível” com o cronograma definido pelo Ministério da Educação (MEC).

Calendário Vestibular Unicamp 2021

  • Divulgação dos aprovados na 1ª fase: 29 de janeiro
  • 2ª fase: 7 e 8 de fevereiro
  • Provas de habilidades específicas (exceto música): 11 e 12 de fevereiro
  • Divulgação da primeira chamada: 10 de março
  • Comissão de averiguação virtual dos convocados cotas étnico-raciais da primeira chamada/Solicitação e divulgação do resultado de recurso dos convocados em primeira chamada de cotas étnico-raciais: 11 de março
  • Matrícula presencial da primeira chamada, nas unidades de ensino: 15 de março
  • Início das aulas: 15 de março
  • Confira calendário completo

* Sob supervisão de Arthur Menicucci e Fernando Pacífico.