UFJF anuncia corte de 75% nos recursos do programa de Apoio à Pós-graduação em Juiz de Fora


Instituição anunciou uma série de medidas tomadas pelo Consu, após análise do orçamento previsto para 2021. O G1 conversou com professores e estudantes, que avaliaram o impacto nas pesquisas e na formação. Portão de entrada Norte da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
Twin Alvarenga Secom UFJF/Divulgação
Na terça-feira (11) a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) confirmou um corte de 75% nos recursos do programa de Apoio à Pós-graduação (APG), utilizados na compra de insumos, inscrições em congressos, tradução de artigos e outros fins. O G1 conversou com professores e estudantes, que avaliaram o impacto nas pesquisas e na formação. (Veja abaixo)
O corte é uma das medidas adotadas pela instituição a partir do corte orçamentário de 18% imposto pela Lei Orçamentária Anual (LOA) 2021 às universidades federais, que comprometeu o funcionamento dos serviços das instituições em todo o país.
Diante deste cenário, no dia 14 de abril o Conselho Superior (Consu) da UFJF anunciou uma série de ajustes internos para este ano. O projeto que aprova os cortes foi sancionado no dia 22 de abril pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
De acordo com a instituição, o Consu aprovou vários ajustes nas despesas da UFJF previstas para 2021. Entretanto, eles não serão todos aplicados imediatamente.
“Ajustes nos valores das bolsas serão aplicados na medida em que ocorrer a implementação das mesmas. Os cortes de pessoal serão aplicados na medida em que os contratos forem negociados e implementados – alguns serviços terceirizados serão fruto de novos contratos ainda a ser licitados em 2021. Outras medidas, como o limite para diárias, passagens e aquisição de material de consumo estão sendo aplicadas após procedimentos internos que devem ser concluídos até o mês de junho”, informou.
Bolsas de Mestrado e Doutorado
Também na terça-feira, a UFJF afirmou que conseguiu manter os valores das bolsas de mestrado e doutorado: R$ 1.500 e R$ 2.200, respectivamente. O montante ofertado em residência em Economia e Gestão Hospitalar, Farmácia e Docência também permanece em R$ 3.996,52.
Em contrapartida, houve corte de 75% nos recursos do programa de Apoio à Pós-graduação (APG), utilizados na compra de insumos, inscrições em congressos, tradução de artigos e outros fins. Ainda vale considerar que as bolsas de pós-graduação também vêm sofrendo cortes sucessivos por entidades de fomento à pós-graduação e pesquisa.
A pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa, Monica Ribeiro, contou que a instituição está preocupada com a manutenção dos equipamentos, aquisição de insumos e material de consumo tão necessários para o suporte às pesquisas.
“Os impactos na pesquisa se realizam no Brasil, em grande parte associada às ações dos Programas de Pós-graduação (PPGs). Como nossos cortes incidiram sobre os recursos de financiamento, estamos preocupados com a manutenção dos equipamentos, aquisição de insumos e material de consumo tão necessários para o suporte às pesquisas”, explicou.
Monica reitera que, conscientes de uma graduação de excelência, há a clareza que a instituição precisa alcançar notas mais altas nas duras avaliações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e que esta avaliação depende muito de suporte. “Houve um esforço para a manutenção do número e valor das bolsas do Programa de Bolsas, pois aumentar o acesso às pessoas de menor renda está sendo motivo de grande preocupação da Propp”, destacou.
Para minimizar as perdas, a Propp incentiva os pesquisadores na busca por recursos de agências de fomento em editais públicos e irá continuar na luta pela defesa de maiores recursos para a ciência, tendo em vista a centralidade na resolução de muitos problemas que atualmente afligem a humanidade.
“Para a Propp, a preservação do número de bolsas e de seu valor representa um importante estímulo à continuação da política de excelência que estamos desenvolvendo. Uma vez que o setor deveria contribuir com sua cota de ‘sacrifício’, o corte dos recursos financeiros constituiu a melhor saída. Para diminuir esse impacto, recomendamos fortemente aos pesquisadores, que busquem a submissão aos editais das agências de fomento. Por meio deles é possível angariar apoio para aquisição de insumos, material de consumo ou mesmo recursos para manutenção de equipamentos”, finalizou a pró-reitora.
Cortes ameaçam formação estudantil
Desde 2017 as instituições de ensino sofrem com uma sistemática redução no orçamento por causa da Emenda Constitucional nº 95, do Teto de Gastos, que limita o crescimento das despesas do governo brasileiro durante 20 anos.
“Durante todo o período em que começamos a observar cortes expressivos, a UFJF trabalhou de forma intensa para, apesar das reduções, conseguir manter suas atividades com padrão de excelência e com políticas de permanência estudantil, mas chegamos a um ponto em que nós não temos como administrar sem realizar cortes”, informou o reitor Marcus David.
“Sempre priorizei meus estudos e a UFJF foi o lugar que vi isso se tornar realidade”, diz bolsista em Juiz de Fora
Estudante da UFJF comenta cortes orçamentários
Arthur Cardoso/Arquivo Pessoal
Arthur Cardoso Furtado, 20 anos, cursa a graduação de Química na UFJF desde 2019, aprovado pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Nascido em Mar de Espanha (MG), o jovem conta que veio para Juiz de Fora em busca de maiores oportunidades de estudo.
“Por muito tempo, desde pequeno almejei entrar em uma universidade, sempre priorizei meus estudos e a UFJF foi um lugar onde vi meus sonhos se tornarem possíveis”.
Arthur participa do Programa de Bolsas e Assistência Estudantil da UFJF, além de ser bolsista do Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), programa que apoia a permanência de estudantes de baixa renda matriculados em cursos de graduação presencial das instituições federais. Durante a pandemia, ele recebe outros dois auxílios ofertados pela Instituição de Ensino para ajudar durante o período. Aos finais de semana, o jovem trabalha em um mercado para complementar a renda e se manter na cidade, onde mora com a irmã.
“Eu como bolsista falo com toda convicção que as bolsas possuem uma grande importância, não só para a formação acadêmica, vai muito além disso. Muitos estudantes necessitam dessas bolsas para se manterem nas universidades, para terem acesso a uma educação superior de qualidade. Infelizmente estamos passando por um momento muito delicado e esses cortes nas Universidades Federais e na educação superior como um todo inviabilizam os sonhos de muitos estudantes. A UFJF tem feito um trabalho incrível durantes todos esses anos , um exemplo disso é a vacinação e pesquisas no combate a Covid-19. O próprio Departamento de Química da UFJF criou um projeto para a produção de sabão e álcool em gel para o enfrentamento da pandemia, com finalidade as doações para a população vulnerável. Para esse momento muita força e união, tem muita luta ainda pela frente!”, conclui o estudante.
Segundo o pró-reitor de Graduação, Cassiano Amorim, “ao diminuir o número de bolsas, limitamos as experiências formativas, o desenvolvimento de competências e habilidades específicas para o desempenho profissional dos alunos.”
Bolsas oferecidas pela Instituição
Com 20.662 estudantes matriculados em 79 cursos em dois campi, a UFJF, assim como boa parte das demais instituições de ensino públicas brasileiras, pode ter o Ensino Superior gratuito e de qualidade comprometido. A redução orçamentária acumulada é de 47% – passa de R$ 157,9 milhões em 2016 para R$ 82,3 milhões em 2021.
De acordo com a UFJF, foram disponibilizadas em 2020 cerca de 252 bolsas de pós graduação, sendo 21 de residência, 144 de mestrado e 85 de doutorado. Referente a estas bolsas, a instituição informou que não haverá redução no número nem nos valores.
No que diz respeito às 3.607 bolsas oferecidas para graduação e ensino básico – fundamental e médio, haverá redução de 867 bolsas e do valor da maioria delas. A UFJF não especificou quais sofrerão cortes no valor.
Tipos de bolsas
1. Graduação
Extensão;
Interface com Extensão;
Grupo de Educação Tutorial;
Monitoria de Graduação;
Monitoria em Línguas Estrangeiras;
Treinamento Profissional;
Iniciação Científica;
Infocentros;
Idiomas sem Fronteiras;
Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes);
Programa de Iniciação Tecnológica;
Iniciação Artística.
2. Pós graduação
Pós-graduação: Mestrado; Doutorado;
Residência em Economia e Gestão Hospitalar;
Residência em Farmácia;
Residência em Docência.
Com 3.300 alunos matriculados nos 46 programas de pós-graduação, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) pretende manter o apoio às atividades de pesquisa dentro dos programas e continuar atraindo estudantes. Apesar dos cortes orçamentários, a instituição ainda mantém as 252 bolsas de pós-graduação, entre elas, 21 de residência, 144 de mestrado e 87 de doutorado. Além do apoio com recursos próprios, os discentes podem concorrer a editais das agências de fomento.
3. Ensinos Fundamental e Médio
Colégio de Aplicação João XXIII;
Iniciação em Educação de Jovens e Adultos;
Monitoria Júnior;
Programa de Incentivo ao Exercício do Ensino;
Programa de Incentivo ao Exercício da Docência na Educação Inclusiva;
Auxílio Financeiro Digital;
Projeto Aluno-assistente na Escola (suspensa);
Transporte (suspensa);
Auxílio Emergencial Temporário João XXIII (suspensa).
O reitor Marcus David destacou a trajetória de excelência da UFJF. “A UFJF é marcada pela excelência na graduação e esses projetos contribuem para a formação dos estudantes. Para muitos deles, isso vai significar um impacto muito grande. Também indica que nossos projetos de pesquisas e o atendimento à comunidade serão prejudicados em função da não participação de nossos estudantes”.
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